Thomson e Nokia com Google TV: que fazer com um televisor órfão
· 7 min de leitura
| Marcas | Thomson e Nokia, ambas sob licença |
|---|---|
| Licenciada | StreamView GmbH, Viena |
| Situação | Em falência desde Abril de 2026 |
| Sistema | Google TV |
| Séries afectadas | QG7C14, UG5C14, UG4S14 e as Nokia GE320 |
| Último Nokia | Dezembro de 2023 |
| Actualizações | Não é de esperar nenhuma |
| ADB | Funciona com normalidade |
| O que continua | O painel, as entradas HDMI e as aplicações instaladas |
Esta ficha é diferente das restantes, porque o problema destes televisores não está no software que trazem: está em que já não há ninguém por trás.
A StreamView GmbH, a empresa vienense que fabricava e vendia os televisores Thomson e Nokia na Europa sob licença dessas marcas, entrou em falência em Abril de 2026, com cerca de 36 milhões de euros de dívida e sem plano de reestruturação. A marca Nokia já tinha desaparecido do seu catálogo em Agosto de 2024; o último lançamento foi a gama GE320, de Dezembro de 2023.
Se tem um destes televisores em casa, ele continua a funcionar exactamente como ontem. Mas convém saber o que isso significa daqui para a frente.
O que muda e o que não muda
Hoje não muda nada. O painel funciona, as entradas HDMI funcionam, as aplicações que tem instaladas continuam lá e o Google TV arranca na mesma. Nenhuma empresa lhe pode desligar um televisor à distância por ter falido.
O que não vai chegar são as actualizações. Nem de sistema, nem de segurança, nem a versão seguinte do Android. Um televisor destes fica na versão que tem hoje, para sempre.
As suas aplicações são outra coisa, e é este o ponto que mais se confunde. O Netflix, o YouTube, o Disney+ e os restantes vêm da Play Store, não da StreamView, e continuam a actualizar-se como sempre fizeram. O que o desaparecimento do fabricante congela é a camada de baixo: o Android, as correcções de segurança e o firmware do próprio televisor.
E isso, com o tempo, tem consequências concretas: as aplicações deixam de publicar versões compatíveis com sistemas antigos, pelo que daqui a alguns anos alguma que usa hoje deixará de se actualizar ou de se instalar. Não de repente: pouco a pouco, a começar pelas que mais mudam.
A garantia é outra coisa. Se comprou numa loja da União Europeia, a sua garantia legal é da responsabilidade do vendedor, não do fabricante. A falência do fabricante não o deixa sem ela dentro do prazo. Se a loja o remeter para o fabricante, essa remissão não está correcta. Guarde o talão ou a factura: é o que liga o aparelho à loja que lho vendeu.
Como saber se o seu é um destes
As séries da Thomson com Google TV levam uma letra que as denuncia: no código de modelo, QG, UG, MG, FG e HG correspondem a Google TV. As que levam FF ou HF são Fire TV, e há outras com TiVo OS ou com Linux, que são televisores diferentes.
Os modelos concretos da gama Google TV incluem as séries QG7C14 e QG7S14 (as QLED Pro), e as UG5C14, UG5S14 e UG4S14 (as UHD). Na Nokia, a última fornada foi a GE320, em 24, 32, 40 e 43 polegadas, nenhuma delas 4K.
Em Definições → Sistema → Acerca de vê o modelo e a versão do Android.
Nestas séries costuma ser Android 12, embora alguma unidade tenha sido entregue
com Android 11. Com o ADB ligado, getprop ro.product.model devolve o mesmo
identificador sem passar pelos menus.
Uma nota sobre as suas fichas técnicas
Vale a pena dizê-lo, porque afecta aquilo que julgava ter comprado.
A ficha oficial do QG7C14 declara um painel de 144 Hz. Um teste independente alemão, com o televisor à frente, concluiu que o painel é de 50 Hz e que esses 144 correspondem a compensação de movimento. Não conseguimos resolver a contradição daqui, mas podemos assinalá-la: se comprou a pensar em 144 Hz reais para jogar, verifique-o no seu próprio aparelho antes de o dar como certo.
O que está medido nesse modelo: cerca de 841 nits em HDR, o que para o seu preço está bem, e um input lag de 8 milissegundos em modo de jogo, o que está muito bem.
Quanto à memória, a StreamView nunca publicou valores oficiais. O que circula na imprensa são 2 GB de RAM e 16 GB de armazenamento, e não há forma de o confirmar agora que a empresa não existe.
Porque é que aqui limpar importa mais do que noutros
Num televisor com fabricante por trás, tirar aplicações é uma melhoria. Num órfão é outra coisa: é o que lhe alarga a vida útil.
Com 16 GB e sem actualizações futuras, cada aplicação pré-instalada que não usa está a ocupar um espaço de que vai precisar à medida que as que usa forem engordando. E como o sistema já não vai melhorar, toda a margem que conseguir tem de sair daquilo que tirar.
Esses 16 GB, aliás, nunca foram todos seus: o sistema e os dados das aplicações já instaladas partilham a mesma memória. O que lhe sobra é bastante menos do que o número impresso na caixa.
O que se tira é o do costume: as aplicações de streaming que não usa, os canais de conteúdo gratuito que enchem o ecrã inicial, e as aplicações do fabricante — que neste caso, ainda por cima, apontam para serviços que podem deixar de existir.
O que não se toca, também o do costume: os serviços do Google Play
(com.google.android.gms), o lançador (com.google.android.tvlauncher)
enquanto não tiver outro, e tudo o que comece por com.android. sem saber o
que é.
A decisão que vale mesmo a pena tomar
Em quase todas as fichas deste sítio, pôr um leitor externo à frente do televisor aparece como uma opção para quando o aparelho fica curto. Aqui não é uma opção: é o plano.
O raciocínio é simples. O painel destes televisores é a única coisa que não depende de existir uma empresa: daqui a oito anos continuará a dar a mesma imagem. O software, esse, já está congelado hoje. Um leitor externo de cem euros actualiza-se durante anos, muda-se quando é preciso e transforma o seu Thomson naquilo que ele na verdade é daqui para a frente: um bom ecrã.
Faça-o antes de o sistema começar a falhar-lhe, não depois. Ligue-o por HDMI-CEC e o comando do televisor passa a controlar o leitor, para que ninguém lá em casa tenha de aprender uma rotina nova.
E quando o fizer, deixe o televisor fora da rede: um aparelho que já não vai receber correcções de segurança é melhor tê-lo fora da internet, e com o leitor à frente não vai dar por falta dele.
O que este sítio não lhe vai dizer
Não lhe vamos recomendar que instale firmware de terceiros nem que faça root ao aparelho. Não há uma comunidade por trás destes modelos como há noutros, a empresa que poderia dar apoio já não existe, e um televisor que não arranca não tem a quem reclamar.
O que pode fazer, e é reversível, é o que explica o resto deste sítio: listar o que traz, desactivar o que não usa e ficar com um televisor mais sossegado.
Se tem um
A lista de aplicações do seu Thomson ou do seu Nokia, tal como o aparelho a devolve, tem agora um valor que antes não tinha: é a documentação de um televisor que mais ninguém vai documentar. Se lhe apetecer enviá-la, fica guardada para a próxima pessoa que se pergunte o que fazer com o seu.